O operativo militar executado por militares colombianos em solo equatoriano para matar o dirigente
das FARC Raul Reyes, é parte da estratégia dos EUA para alterar o equilíbrio militar
da região. Na mira está o petróleo da Venezuela e do Equador, porém também
está em xeque o Brasil como potência regional emergente.
Nas declarações, o objetivo são as FARC (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia), ou seja o narcoterrorismo. Porém, na realidade o operativo militar colombo-estadunidense
que vulnerabilizou a soberania do Equador aponta diretamente para Hugo Chávez. Estamos vivendo
o que podería ser a primeira fase de uma vasta ofensiva para desestabilizar o process bolivariano
e modificar a relação de forças na América do Sul.
A estratégia foi sendo implementada por etapas. Primeiro foi o Plano Colômbia para fortalecer
a capacidade militar do Estado colombiano e coloca-lo entre os mais poderosos do continente. Depois,
começou o derrame da guerra interna colombiana sobre os países vizinhos. A terceira etapa
parece ser a guerra preventiva, que se converteu em uma destacada estratégia militar do Pentágono
logo depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
É a primeira vez em muito tempo que Washington toma a ofensiva na região e é capaz
de colocar uma porção importante dos países latino-americanos atrás da sua
estratégia. É também uma ostentação de força no momento que
o governo de Hugo Chávez atravessa sérias dificuldades internas e não consegue apoios
para sua estratégia de responder tensão com mais tensão.
Em primeiro lugar o que chama a atenção é a falta de pudores dos atores. As FARC
se apresentam como uma organização revolucionária e popular porém, na realidade,
são um grupo armado que viola os direitos humanos, recruta menores à força, abusa
das mulheres e dos reféns que mantém em seu poder e se financia graças ao narcotráfico.
Muitos países a consideram terrorista.
Por outro lado, o presidente Álvaro Uribe Vélez integrou o narcotráfico e foi
aliado dos paramilitares, como está registrado no Arquivo de Segurança Nacional dos Estados
Unidos revelado pela revista Newsweek em 2004. Ali, aparece que Uribe fazia parte, no início
dos anos 90, do Cartel de Medelin, comandado pelo narcotraficante Pablo Escobar, de quem era amigo íntimo.1 Esse é o
tipo de pessoa que George W. Bush definiu em 4 de março deste ano como nosso aliado democrático.
Uribe se converteu no principal operador das políticas da casa branca na região.
Novo equilíbrio regional de forças
O negócio da guerraA origem das FARCs é diferente da de outros grupos combatentes. Em 1948 foi assassinado o líder Liberais e comunistas, perseguidos ferozmente pelo Estado, se refugiaram em regiões remotas A origem Liberal de boa parte dos seus efetivos, entre eles Manuel Marulanda Vélez, Tirofijo A segunda vertente, mais importante ainda, defende a necessidade dos camponeses se defenderem dos Até começos da década de 1980 as FARC contavam com mil à três mil A partir de 1986, sob o governo Virgilio Barco, começaram processo de paz com o M-19, o EPL, Em 1998 se abre um novo processo de paz com o presidente Andrés Pastrana e a criação Com o governo Uribe, desde 2000, tudo foi piorando. As FARC tiveram que se recolher e perderam numerosos A forma como se financiam é um dado relevante. Aproximadamente 78% de sua renda, ou seja em Um segundo elemento que deslegitimou as FARC é que entre 20-30% de seus efetivos são Pior que ainda tem mais. As pessoas comuns percebem que a guerra a prejudica e beneficia os poderosos. |
Em 2004 uma revista militar brasileira (Military Power Review) elaborou um ranking das forças
armadas sul-americanas incluindo todas as variáveis: desde a quantidade de efetivos e a qualidade
do equipamento até os planos de defesa e a projeção estratégica. A análise
estabeleceu uma pontuação a cada nação de acordo com seu poderio militar.
Em primeiro lugar aparecia o Brasil com 653 pontos; em uma segunda colocação aparecia o
Perú com 423 pontos, Argentina com 419 e Chile com 387. Logo vinha outro grupo em que estava a
Colômbia com 314, depois a Venezuela com 282 e o Equador com 254 pontos.2 Naquele
momento, há apenas quatro anos, a diferença a favor das forças armadas do Brasil
era considerável, enquanto era seguido por dois grupos de países relativamente emparelhados
entre si.
Em 2007 a mesma revista difundiu dados sobre a quantidade de efetivos das diferentes forças
armadas em cada país com cifras do ano anterior. Os dados dos exércitos permitem concluir
que a Colômbia (178.000 soldados) se situou em segundo lugar no continente muito próxima
do Brasil (190.000 soldados). Em poucos anos, o poderio militar desse país escalou posições
em forma geométrica. Nesse mesmo ano o exército da França tinha 137.000 efetivos
e o de Israel 125.000. Para 2008 já são 210.000 os efetivos terrestres da Colômbia,
superando dessa forma o Brasil que tem uma população quatro vezes maior e sete vezes a
superfície colombiana. O gasto militar da Colômbia é o maior do continente: 6,5%
do PIB, muito acima do gasto dos EUA (4%), dos países da OTAN (2%) e do resto da América
do Sul (1,5 a 2%).
Se observarmos a progressão das forças armadas da Colômbia, seu crescimento é assombroso.
Em 1948, quando aconteceu o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán que deu início à La
Violência, haviam 10.000 militares. Em 1974 já eram 50.675 para subir até 85.900
em 1984, no período que começaram as negociações de paz para a desmobilização
de várias organizações armadas. Para 1994 havia 120.000 efetivos que se elevaram
a 160.000 nas primeiras fases do Plano Colômbia. Neste momento, as três armas das formas
armadas colombianas têm 270.000 uniformizados aos quais se somam 142.000 policiais. No total, mais
de 400.000 pessoas em armas em sete divisões, com uma Força de Deslocamento Rápido
e uma agrupação de Forças Especiais Anti-terroristas.3
Só em 2007 o exército criou 52 novas unidades. Recebeu doações de helicópteros
Black Hawk dos Estados Unidos, comprou 13 aviões de caça de Israel e 25 aviões de
combate Super Tucano do Brasil em 2006. As forças armadas da Colômbia são muito superiores às
de seus vizinhos. A relação de efetivos é de seis pra um com a Venezuela e de onze
a um com o Equador. Porém, a principal diferença é que se trata de tropas treinadas
em combate de selva e que contam com respaldo logístico de Washington.4
Em pouquíssimos anos, se produziu na América do Sul uma virada espetacular do poderio
militar. É resultado do Plano Colômbia. Com a desculpa de combate às FARC e ao narcotráfico,
desde agosto de 2000, quando o Congresso dos EUA aprovou o Plano Colômbia, este país recebeu
US$5,225 bilhões de ajuda militar. A isso se soma a aplicação do governo de Uribe
de impostos especiais aos setores de maior rendimento econômico para equipar as forças armadas.
Helicópteros de transporte e ataque, armamento leve, óculos infra-vermelhos, proteção
de oleodutos, lanchas rápidas, aviões turbohélice de ataque à terra, aviões
de inteligência, controle e radares para seguir vôos ilegais, são as principais aquisições.5
Envolver os vizinhos
Em 2003, o sociólogo James Petras apontava que a verdadeira preocupaçao do Comando Sul
dos Estados Unidos, quem realmente desenha a política regional, é que os países
vizinhos da Colômbia (Equador, Venezuela, Brasil e Panamá), que estão sofrendo os
mesmos efeitos adversos das políticas neoliberais, se mobilizem politicamente contra a política
militar e os interesses econômicos dos Estados Unidos.6
Por isso a estratégia contemplada pelo Plano Colômbia não consiste tanto em ganhar
a guerra interna mas espalhar-la pelos países visinhos como forma de neutralizar sua crescente
autonomia em relação à Washington. Militarizar as relações inter-estados
sempre é um bom negócio para quem apóia sua hegemonia na superioridade militar.
Nesse sentido, a existência das FARC é funcional aos planos belicistas de Washington.
Rafael Correa mencionou que o custo de controlar a fronteira com a Colômbia, aonde tinha destacados
10.000 efetivos antes da incursão de 1 de março, supera os cem milhões de dólares
anuais. A Colômbia não controla essa fronteira e empurra a guerrilha até o solo equatoriano,
como forma de produzir desestabilização. Nos últimos anos, o Equador desmantelou
em torno de 40 acampamentos das FARC na sua fronteira e apresentou dezenas de queixas pela fulmigação
de supostos cultivos de coca que terminam afetando a população equatoriana fronteiriça.
O Brasil decidiu impermeabilizar sua fronteira já nos tempos de Fernando Henrique Cardozo. Em
resposta à intenção da administração Clinton de implicar-lo nos objetivos
do Plano Colômbia, já em 2000 colocou em marcha o Plano Cobra (das iniciais de Colômbia
e Brasil) para evitar que a guerra nesse país se desdobrasse sobre a Amazônia brasileira,
e o Plano Calha Norte para evitar que guerrilheiros e narcotraficantes cruzem a fronteira.7
O controle da região andina é considerada chave para a hegemonia estadunidense no continente,
tanto por razões políticas como pela riqueza mineral que ela contém. Permite que
as multinacionais estadunidenses recuperem o terreno perdido desde que na década de 90 foram parcialmente
substituídas pelas européias; asseguraria por outros meios o que se pretendia através
da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas); impede que outras potências
emergentes (Brasil, China e Índia) se posicionem na região.
Porém, existe também a vertente petróleo. Em 1973, os Estados Unidos importou
36% das suas necessidades petroleiras. Hoje em dia os Estados Unidos importa 56% do petróleo que
consome. A Venezuela é o quarto provedor, que abastece 15% das suas necessidades, e a Colômbia
o quinto provedor.8 Assegurar o fluxo do recurso energético
requer um controle territorial de enclave com presença militar sobre o terreno.
A desestabilização da Venezuela
Desde a derrota do governo Chávez no referendo para a reforma da Constituição,
o 4 de dezembro de 2007, a tensão interna e regional deu vários passos adiante. Como prognisticaram
vários analistas, a crise econômica parece fora de controle e está gerando problemas
nas relações entre o governo e a população.9 Parece
ser uma boa ocasião para tentar a desestabilização.
Efetivamente tudo indica que Raul Reyes, a cara mais visível das FARC por causa de seu caráter
negociador, havia sido localizado em ocasiões anteriores mas nunca se decidiu atacá-lo.
A decisão de desencadear uma ação desse tipo, neste momento, teria várias
leituras. Por um lado, aproveitar a situação interna da Venezuela, mas também abalar
a governabilidade de Rafael Correa que está no começo de um programa de transformações
que têm no controle estatal do petróleo um dos seus eixos principais, e em uma sólida
aliança com o Brasil um ponto de apoio essencial.
Porém, uma desestabilização da região também teria efeitos muito
nocivos para o Brasil, a potencia regional emergente que está saindo fortalecida da crise econômica
mundial em curso. Em 2007 o Brasil teve um aumento de 84% de investimentos estrangeiros diretos em relação
a 2006 e em janeiro de 2008 o dobro que o mesmo mês do ano anterior. Com razão, a revista
Exame publica um informe que assinala que o país vive o melhor momento econômico em três
décadas e que tem a oportunidade de entrar na elite do capitalismo mundial.10
Ocupar esse lugar pressupõe substituir outros. Ou seja, Brasil está preenchendo o vazio
que a crescente debilidade de Washington está deixando. Por isso sua diplomacia joga pela paz:
para promover os negócios e para podar o militarismo que sempre é o melhor negócio
para uma superpotência em decadência. Clovis Brigagao, diretor do Centro de Estudos Americanos
da Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro, assinalou que o momento atual é uma oportunidade única
para estabelecer uma mediação coletiva similar ao Grupo de Contadora que nos anos 80 promoveu
a pacificação da América Central.11
Por último, a Venezuela está sofrendo um tipo de desestabilização que
pode ser um modelo para aplicar-se em outros países. Júlio Garcia Jarpa, deputado do estado
de Táchira, fronteira com a Colômbia, observa a extensão na Venezuela do fenômeno
paramilitar. Diante do plano de desmobilização do paramilitarismo na Colômbia, alguns
grupos se concentraram na fronteira com os estados venezuelanos Apure, Zulia, Mérida, Táchira
e Trujillo.12 De lá contrabandeam gasolina, monopolizam
alimentos e contribuem para gerar insegurança, corrompendo funcionários e gerando um clima
de violência.
Esses estados conformam um terço do país e são os que contam com os recursos
de hidrocarbonetos mais importantes e estão incluídos, segundo denuncia o deputado venezuelano,
em um plano de secessão como o que promovem os departamentos de Santa Cruz e Tarija na Bolívia.
Depois do ocorrido no Kossovo, aonde a independência promovida pelo ocidente parece ligada ao negócio
petroleiro, a tese de que a direita venezuelana, apoiada pelos interesses estadounidenses, promovam a
secessão da região ocidental não parece um disparate.
Em paralelo, os dados que estão saindo à luz permitem concluir que boa parte das denúncias
de Chávez sobre uma conspiração contra seu governo não são fruto da
sua imaginação. O assunto é como conter as tendências à guerra e como
cortar a polarização. Nesse sentido, a diplomacia brasileira segue dando mostras de sentido
comum e de saber fazer. Não deixou de tomar partido pelo agredido, mas colocou o norte em construir
uma paz estável na região, assentada na integração regional. Para isso, a
construção da Comunidade Sul-americana de Nações é mais urgente do
que nunca.
Notas
- Newsweek, 4 de agosto de 2004 en www.newsweek.com/id/54793.
- Ver www.militarypower.com.br/frame4-ranking.htm.
- José Fernando Isaza Delgado y Diógenes Campos Romero, "Algunas
consideraciones cuantitativas sobre la evolución del conflicto en Colombia," Bogotá,
diciembre de 2007. - "Uribe listo para ir a la guerra," Página
12, 5 de marzo de 2008. - Fabián Calle, "La crisis Venezuela-Colombia: las
capacidades militares que esconden las palabras," 4 de marzo de 2008, www.nuevamyoria.com. - James Petras, "La estrategia militar de Estados Unidos en
América Latina," en América Libre, No. 20, enero 2003. - ‘Os militares, o governo neoliberal e o pé americano na
Amazonia’, en revista Reportagem, www.oficinainforma.com.br. - Raúl Zibechi, "El nuevo militarismo en América
del Sur," Programa de las Américas, mayo de 2006. - Raúl Zibechi, "Venezuela: Debates a raíz de
la reforma de la Constitución," Programa de las Américas, diciembre de 2007. - "O Brasil que acelera." Exame, 6 de marzo de 2008
en http://portalexame.abril.com.br. - Mario Osava, "Brasil se resiste a mediar en conflicto
andino," IPS, 4 de marzo de 2008. - Miguel Lozano, "Paramilitarismo, punta de lanza del separatismo
en Venezuela," Prensa Latina,7 de marzo de 2008.
